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12/07/2007 15:24:29

Acidente com usina nuclear alemã foi mais grave do que o noticiado na semana passada

A usina nuclear mais antiga da Alemanha, localizada em Brunsbuettel, a 20 quilômetros de Hamburgo, correu sério risco de explodir na semana passada, por conta da alta concentração de hidrogênio no reator. Segundo a Vatenfall, empresa que opera a planta nuclear, o acidente foi provocado por uma sucessão de falhas, que teve início no último dia 28, quando um incêndio atingiu um dos transformadores da usina vizinha de Kruemmel.

Brunsbuettel está em operação desde 1976. Seu descomissionamento estava previsto para 2009, mas poderá ser antecipado. A tecnologia da planta nuclear é da mesma geração das usinas de Angra 2, em operação, e Angra 3, que o governo brasileiro pretende terminar de construir, depois de mais de 20 anos de paralisação das obras.

A Alemanha, parceira do Brasil no programa nuclear desde 1975, ainda não decidiu se apoiará a decisão do Ministério das Minas e Energia, endossada pelo presidente Lula. A série de incidentes iniciada em 28 de junho deve ter como consequência o fortalecimento das vozes discordantes no governo alemão, como os representantes do Partido Verde e do SPD, que preferem um novo acordo em torno do desenvolvimento de fontes limpas, renováveis e seguras para a produção de energia.

Leia a seguir a reportagem da IPS.
Alemanha: acidentes renovam campanha contra energia nuclear

Por Julio Godoy, da IPS

Uma série de falhas técnicas em duas das centrais nucleares mais velhas da Alemanha fez levantar novas vozes pedindo seu fechamento. Entre 28 de junho e o último dia 7, as usinas de Kruemmel e Brunsbuettel, ambas a cerca de 20 quilômetros da cidade de Hamburgo, tiveram de ser fechadas várias vezes por problemas técnicos de gravidade indeterminada. A gigante sueca Vantenfall, encarregada dos dois geradores, foi acusada de não informar adequadamente o governo local sobre os acidentes.

Vatenfall, finalmente, admitiu no sábado que o gerador de Brunsbuettel, que havia apagado menos de uma semana antes, ficou fora de serviço parcialmente por causa de uma concentração de hidrogênio no reator, com risco de explosão. No dia 28 de junho, um curto-circuito desconectou a usina imediatamente e originou um incêndio em um dos transformadores que afetou a estação próxima de Kruemmel, que também apagou de forma automática. Vatenfall admitiu que um manejo inadequado dos problemas iniciais, do último dia 28, em Brunsbuettel motivou uma série de falhas na semana seguinte, que, por sua vez, levou ao fechamento parcial.

A ministra de Assuntos Sociais do Estado de Schleswig-Holstein, Gitta Trauernicht, anunciou que se estuda cassar a autorização da Vatenfall para operar instalações atômicas na área. “Segundo nossas leis, confiabilidade e capacidade técnica impecável são condições indispensáveis para operar estações de energia nuclear”, disse a ministra aos jornalistas, na segunda-feira. “Utilizarei todos os instrumentos legais à minha disposição para sancionar em razão do ocorrido. Não duvidarei em tomar medidas severas contra a Vatenfall, já que sua estrutura parece estar falhando”, acrescentou a ministra.

A empresa sueca acaba de pedir autorização para continuar operando Brunsbuettel depois de 2009, quando, se supõe, ficará fora de serviço. Essa é a usina nuclear mais antiga da Alemanha. Vatenfall teve problemas semelhantes em Forsmark, na Suécia. Em julho de 2006, também se apagou um dos reatores dessa usina, após um curto-circuito. O ex-chefe de construção da empresa, Lars-Olov Höglund, disse naquela época que se tratava do acidente mais grave desde o desastre da central ucraniana de Chernobyl em 1986.

O presidente da Vatenfall na Alemanha, Bruno Thomauske, anunciou em entrevista coletiva que toda informação técnica sobre as usinas nucleares estaria disponível na Internet. “Entendemos que a população espera informação rápida e completa”, afirmou. As últimas falhas aconteceram após um encontro do governo federal e as empresas de energia elétrica para que haja coincidência entre a política alemã nessa área no contexto das diretrizes da União Européia para reduzir em 20% os gases causadores do efeito estufa, até 2020. A reunião não teve resultados concretos, mas os acidentes de Brunsbuettel e Kruemmel reavivaram o debate sobre a utilização da energia atômica.

Aproximadamente 12,5% da eletricidade consumida na Alemanha são de origem nuclear. As quatro maiores companhias de geração de energia elétrica do país pedem uma revisão da decisão adotada em 1998 pelo governo federal para fechar a central mais antiga do país em 2023. Esta decisão foi tomada com base em considerações ambientais e de segurança nuclear, especialmente por questões ligadas a lixo radioativo. A medida de 1998, adotada pela coalizão governante do Partido Social-Democrata (SPD) e o Partido Verde, foi confirmada em 2005 pelo governo atual, da União Democrata-Cristã (CDE) e o SPD.

Mas alguns membros do CDU pedem a revisão dessa medida. O primeiro-ministro do Estado da Baixa Saxônia, Christian Wolff, afirmou que a Alemanha precisa de energia atômica “no futuro imediato”. Mas vários especialistas em meio ambiente e em matéria de energia consideram que as centrais nucleares são perigosas e podem ser evitadas. “A energia nuclear é uma tecnologia velha, ineficiente e perigosa. No médio prazo, não necessitaremos mais dela para gerar eletricidade”, disse à IPS o diretor da agência estatal de proteção da radiação, Wolfram Koenig.

A energia atômica representa menos de 2% do total consumido no mundo, afirmou Koenig. “Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, são necessárias três mil centrais nucleares para haver uma contribuição significativa na redução das emissões de gases que provocam o efeito estufa”, acrescentou. Porém, as reservas mundiais de urânio necessárias para fazer funcionar as centrais não serão suficientes para cobrir a demanda, disse este especialista. Além disso – prosseguiu – o seqüela ambiental que a energia nuclear deixa inclui o “problema não resolvido do lixo radioativo, considerações de segurança ligadas ao funcionamento da central e riscos políticos de propagar pelo mundo tecnologia que produz os componentes das bombas atômicas”.

Legenda: Usina alemã de Brunsbuettel
(Envolverde/ IPS)
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