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21/09/2007 00:00:00

Democracia econômica

Ladislau Dowbor

Ladislau Dowbor

As nossas capacidades tecnológicas e econômicas no mundo aumentaram de maneira espetacular. Deveríamos todos estar felizes, inclusive porque, se dividirmos o PIB mundial pela população, constatamos que o volume de bens e serviços produzidos no mundo é amplamente suficiente para assegurar uma vida digna e confortável para todos, evitando tantos dramas e tensões que assolam o planeta.

No entanto, constatamos uma dramática acentuação das desigualdades, tanto entre países como entre os grupos sociais no plano interno das nações. A ameaça aos recursos naturais está se tornando rapidamente um pesadelo, com a contaminação da água e esgotamento dos lençóis freáticos, a liquidação da vida nos mares, a redução da biodiversidade e a esterilização dos solos. O aquecimento global já é uma realidade, e a luta para negar o óbvio por parte de grandes grupos econômicos mostra a que ponto estamos sendo reféns de interesses que relutam a abandonar políticas sistemicamente desastrosas, mas lucrativas no curto prazo.

Acrescente-se a isto o gigantismo corporativo, que faz com que grandes grupos econômicos – em particular nas áreas das finanças, da energia, dos medicamentos, da informação e da comunicação – passem a manejar um “PIB” privado superior ao de inúmeros países do planeta, colocando-se portanto cada vez mais a salvo de qualquer controle democrático.

O resultado prático é um mundo econômico que maneja instrumentos – políticos, tecnológicos, financeiros e midiáticos – extremamente poderosos e de âmbito planetário, enquanto as nossas precárias democracias se vêm fragmentadas em cerca de 200 países diferentes, entre os quais o poder econômico mundial navega à vontade, impondo as suas opções. De certa maneira, o poder econômico tornou-se incomparavelmente mais poderoso, enquanto os processos correspondentes de controle ficaram no século passado.

Em outros termos, coloca-se o problema do crescente desajuste entre os instrumentos políticos – a democracia que conhecemos limita-se essencialmente a políticas tradicionais de governo, com eleições a cada quatro anos – e os instrumentos de poder do mundo econômico, que envolvem tanto a apropriação das próprias políticas governamentais através do financiamento dos candidatos, como o controle da mídia e o poder de desestabilização financeira.

Na realidade, democracia política, no seu sentido tradicional, não basta. Precisamos começar a olhar de forma sistemática alternativas que permitam organizar a convergência entre os objetivos micro-econômicos das empresas e os objetivos sistêmicos da sociedade.

“Democracia Econômica: um passeio pelas teorias” apresenta uma revisão ampla das teorias que estão surgindo no mundo dos que entenderam as ameaças e apresentam alternativas, nos mais diversos planos como as finanças, a gestão do conhecimento, o aproveitamento mais amplo do terceiro setor, os novos processos colaborativos e assim por diante.

O próprio conceito de “democracia econômica” surge de certa forma como um conceito-síntese, no sentido de buscar um denominador comum para os estudos que apresentam formas mais participativas, mais humanas e mais justas de organização econômica. Neste sentido, não se trata do estudo de possíveis utopias, mas da apresentação das novas visões que surgem nos mais diversos setores, e que estão dando resultados.

(O texto completo está disponível em http://dowbor.org/06demoecobnb.doc)


Democracia Econômica, um passeio pelas teorias
Ed. BNB, Fortaleza, 2007, 194 p.
ISBN 978-85-87062-86-4


Ladislau Dowbor, é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e da UMESP, e consultor de diversas agências das Nações Unidas. É autor de “Democracia Econômica”, “A Reprodução Social”, “O Mosaico Partido”, pela editora Vozes, além de “O que Acontece com o Trabalho?” (Ed. Senac) e co-organizador da coletânea “Economia Social no Brasil“ (ed. Senac) Seus numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social estão disponíveis no site http://dowbor.org'