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08/11/2012 18:14:08

Empresas com estratégias sustentáveis rendem o dobro aos investidores

Henrique Andrade Camargo, do Mercado Ético

Em conversa recente com um consultor de sustentabilidade, ele dizia sobre as dificuldades de se trabalhar com o tema de sua especialidade dentro das empresas. Um dos motivos, segundo ele, era que as “ações socioambientalmente corretas” dessas companhias não geravam um centavo a mais de valor para os investidores.

Parece que ele estava redondamente enganado!

Está lá, nas páginas 16 e 17 do relatório 2012 do Carbon Disclosure Projet (CDP) (em inglês), uma organização independente sem fins lucrativos que detém o maior banco de dados corporativos do mundo sobre mudanças climáticas. Segundo os gráficos da publicação recém lançada no Brasil, há uma grande vantagem das companhias que adotam práticas responsáveis contra aquelas que continuam no esquema do business as usual. “As empresas que incorporaram estratégias de sustentabilidade em seus negócios oferecem o dobro de retorno para o investidor”, afirma Nigel Topping, diretor da área de Inovação do CDP.

Assim, não é de se espantar que cada vez mais empresas estejam reportando suas emissões por meio do CDP que, em contrapartida, ganha mais credibilidade e, hoje, fala em nome de 655 investidores. Juntos, eles respondem por US$ 78 trilhões em ativos de empresas.

Este ano, 4 mil das maiores empresas do planeta responderam ao questionário da organização. No Brasil, elas somam 320, sendo que 52 delas fazem parte do grupo das 80 maiores corporações que atuam em território nacional.

Nesta entrevista exclusiva ao Mercado Ético, Topping fala sobre o momento de transição que o mundo corporativo está passando.

Mercado Ético - Dois anos atrás você disse em entrevista ao Mercado Ético que as empresas são agentes de mudança. Elas teriam, segundo você, o capital, a criatividade e a capacidade de desenvolver soluções rapidamente a respeito dos desafios que humanidade vive agora. Por outro lado, é muito improvável que as empresas se movam nesse sentido sem que elas lucrem de alguma forma com isso. Como equalizar essa situação?

Nigel Topping – Essa é uma ótima pergunta. Acho que há uma série de elementos envolvidos. Um deles é que será muito difícil para as companhias em tornar problemas como o aquecimento global e o desflorestamento em lucro se as externalidades, os cursos que elas estão causando ao sistema global, não forem incluídos em nossa economia. É isso que o Nicholas Stern quer dizer em seu livro “Economia das mudanças climáticas”. Ele se refere ao grande fracasso do mercado de todos os tempos. Estamos esgotando os recursos naturais e não estamos cobrando as companhias por isso.

Isso tem mudado lentamente. Já temos preços pelo carbono emitido na Europa, na Califórnia e já está começando um movimento nesse sentido na Austrália e na Coréia do Sul. É muito difícil mudar quando não há preço nos recursos naturais. De qualquer forma, não é somente sobre o preço do carbono. As mudanças climáticas estão alterando o sistema de diversas formas. Há os marcos regulatórios. Mas também há as mudanças físicas que já podem ser percebidas. As empresas estão experimentando isso. Somente no ano passado, houve mais de US$ 1 bilhão de perdas em tributos nos Estados Unidos por causa de enchentes. Na Tailândia, foram US$ 500 milhões. Os cientistas estão cada vez mais ligando os eventos climáticos extremos às mudanças climáticas. Elas estão acontecendo agora mesmo! As empresas devem se preparar para isso ou encontrar uma forma de oferecer produtos ou serviços que ajudem a população.

Há também evidências de que consumidores também estão mudando. As empresas estão desenvolvendo melhores produtos e serviços para atender a essa demanda. Então acho que você estamos no caminho certo.

ME - Recentemente estudei uma empresa que tem conseguido muitos bons resultados ligados à sustentabilidade. Ela desenvolve produtos inovadores, embutindo neles tecnologias cada vez mais avançada. Isso reflete diretamente em aspectos de eficiência energética e redução do consumo de matéria-prima. Mas esses resultados ainda são apenas um efeito colateral dentro de toda a operação da empresa. O fato que realmente importa ali dentro é que ela se torna mais lucrativa com seus produtos inovadores. Como colocar a sustentabilidade no core business das corporações e não apenas tê-la como um resultado marginal?

NT – Se sustentabilidade é um efeito colateral, isso é uma escolha que você fez. Também seria possível dizer que a sustentabilidade foi uma escolha da empresa e o lucro um efeito colateral. As formulações não estão desconectadas.

Sustentabilidade tem relação com recursos naturais e isso custa dinheiro. Então acho que há duas formas de embutir sustentabilidade nos negócios e, assim, parar de ter duas conversas separadas. Uma está ligada à eficiência no uso de recursos naturais. Conseguir mais com os mesmos recursos ou até com menos recursos sempre foi bom para os negócios. O tempo em que o os recursos eram baratos está acabando. Energia está cada vez mais cara e volátil. Água tem sido precificada em cada vez mais mercados. As commodities agrícolas alcançaram preços recordes este ano. Então se você está melhorando sua eficiência na sua cadeia de valor está ligando seus negócios diretamente com lucro e sustentabilidade. Não acho que realmente importe o porquê você faz isso.

ME - Mas você não acha que os resultados poderiam ser melhores se sustentabilidade fosse um pilar verdadeiro da companhia?

NT - Sim claro. Se sustentabilidade fosse vista e tratada como parte do negócio e não apenas como efeito colateral veríamos resultados maiores e mais rapidamente. Acho que estamos em uma fase de transição. Muitas empresas já têm pessoas responsáveis pela área de sustentabilidade. Elas também estão sendo bem sucedidas em colocar a sustentabilidade em seus negócios. O jeito mais fácil é por meio da eficiência no uso dos recursos. Isso economiza dinheiro, o que é sempre um argumento de muito interesse para as empresas. O jeito mais difícil é olhar no longo termo e analisar os riscos envolvendo regulação, mudanças climáticas e mudanças de comportamento dos consumidores. Mas vejo cada vez mais empresas pensando nesses termos de horizonte de 5 a 20 anos e não apenas de 3 a 6 meses.

ME - Me parece que uma forma também interessante de mostrar a preocupação com o longo termo é por meio do próprio CDP. Quantas empresas ao redor do mundo estão reportando suas emissões de carbono pelo sistema desenvolvido pela organização que você representa?

NT - Temos mais de 4 mil empresas reportando por meio do CDP este ano.

ME - E no Brasil?

NT – Cinquenta e duas das 80 maiores empresas do país. Existem também companhias que respondem por fazerem parte da cadeia de valor de seus clientes. No total, são 320 companhias. Acho que isso é um grande exemplo de como a sustentabilidade tem entrado nos grandes negócios.

ME – Em conversa recente com um consultor de sustentabilidade, ele disse que as ações socioambientalmente corretas das companhias não geravam um centavo a mais de valor para os investidores. Como você vê isso?

NT – Acho que ele é um tolo. Se você checar a página 16 do relatório anual do CDP, verá que as empresas mais eficientes em reportar as emissões de carbono para os investidores geraram o dobro de retorno aos investidores nos últimos 6 anos do que as que não o fizeram. Isso é um valor real. E é obvio que tem valor real nisso, porque recursos custam dinheiro. Outra coisa é que esse assunto deve ser tratado com uma política de longo termo. Não há dúvidas de que estamos usando um planeta e meio por ano para atender a nossas necessidades. De um jeito ou de outro o custo desses recursos será ponto fundamental em nossa economia. Então se um consultor não pode ver nada de valor agregado nessas ações ele está no lugar errado.

(Mercado Ético)

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